O sinal do “capacete pontiagudo” (spiked helmet sign) é uma alteração eletrocardiográfica rara e de alto risco, identificada inicialmente em pacientes com abdome agudo e patologias torácicas. Desde então, sua compreensão evoluiu, associando-o a condições graves como hemorragias intracranianas, sepse e distúrbios metabólicos críticos. Neste artigo, exploraremos a origem, os critérios eletrocardiográficos e as implicações clínicas deste sinal.
O que é o Sinal do Capacete Pontiagudo?
O nome peculiar deve-se à forma característica do traçado no eletrocardiograma (ECG): uma cúpula formada pelo supradesnivelamento do segmento ST, com um pico correspondente ao complexo QRS, assemelhando-se ao capacete militar prussiano. Este padrão geralmente ocorre com prolongamento exagerado do intervalo QT, frequentemente superior a 550 ms.
Inicialmente, acreditava-se que o sinal fosse causado por um artefato devido ao estiramento epidérmico mecânico, provocado por um rápido aumento da pressão intra-abdominal ou torácica, ou por contrações síncronas do diafragma e coração. Contudo, estudos subsequentes revelaram sua associação com processos patológicos graves.

Critérios Eletrocardiográficos
Os critérios para identificar o sinal do capacete pontiagudo incluem:
- Deslocamento da linha de base, caracterizado por elevação significativa do segmento ST.
- Prolongamento do intervalo QT, com valores frequentemente superiores a 550 ms.
- Formação de uma cúpula e um pico no traçado, criando a aparência do capacete pontiagudo.
Essas alterações são mais evidentes em derivações precordiais e geralmente apresentam progressão ao longo do tempo.

Considerações Clínicas e Fisiopatologia
A presença do sinal do capacete pontiagudo está intimamente ligada à desregulação autonômica e à hiperatividade do sistema nervoso simpático, que ocorre em resposta a condições clínicas graves. A seguir, destacam-se algumas observações importantes:
- Atividade simpática intensa:
A liberação excessiva de catecolaminas pode levar a estímulo miocárdico exacerbado, necrose e atordoamento das células miocárdicas. - Lesão insular:
A irritação ou lesão na região insular do cérebro pode desencadear um estado hiperadrenérgico, contribuindo para as alterações no ECG. - Associação com síndrome de Takotsubo:
O sinal frequentemente aparece em pacientes com Takotsubo, dada a semelhança no substrato fisiopatológico. - Relação com ablação do gânglio estrelado:
Casos relatados após ablação do gânglio estrelado apoiam a hipótese de um estado hiperadrenérgico como gatilho para o sinal.
Prognóstico e Impacto Clínico
O sinal do capacete pontiagudo está associado a um prognóstico reservado. Ele é frequentemente identificado retrospectivamente e, em muitos casos, sinaliza um alto risco de complicações graves, como arritmias malignas. Torsades de Pointes é uma das arritmias mais comumente observadas nesses pacientes.
Estudos de casos destacam sua alta taxa de mortalidade:
- Série de casos: 6 de 8 pacientes morreram entre 1 e 10 dias após o primeiro registro do sinal.
- Revisão de relatos de casos: Em uma análise com 32 pacientes, 19 (59%) evoluíram para óbito intra-hospitalar.
Esses dados reforçam a importância de reconhecer e monitorar pacientes com o sinal do capacete pontiagudo, que frequentemente requerem manejo intensivo e suporte avançado.
Conclusão
O sinal do capacete pontiagudo é mais do que uma curiosidade eletrocardiográfica – ele representa um marcador de gravidade clínica, associado a condições críticas e alta mortalidade. Sua identificação precoce no ECG é fundamental para guiar intervenções terapêuticas e melhorar os desfechos em pacientes gravemente enfermos.
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Referências
- Scheffer MK, De Marchi MFN, de Alencar Neto JN, Felicioni SP. Eletrocardiograma de A a Z. São Paulo: Manole, 2024.
- Littmann L, Monroe MH. The “Spiked Helmet” Sign: A New Electrocardiographic Marker of Critical Illness and High Risk of Death. Mayo Clin Proc. 2011;86(12):1245–6.
- Mahmoudi E, Hui JMH, Leung KSK, Satti DI, et al. Spiked Helmet Electrocardiographic Sign-A Systematic Review of Case Reports. Curr Probl Cardiol. 2023;48(3):101535.