Desafio ECG 5: Você reconhece essa arritmia no ECG?

Caso Clínico
Paciente masculino, 28 anos, previamente hígido, procura o pronto-socorro com palpitações intensas, sudorese e tontura iniciadas há cerca de 40 minutos.
Relata episódios semelhantes prévios, autolimitados. Nega dor torácica ou dispneia.
Ao exame:
- FC ≈ 220 bpm
- PA: 90/60 mmHg
- Consciente, ansioso e sudorético
Foi realizado ECG de 12 derivações na admissão.
ECG inicial – taquiarritmia irregular de QRS largo
Pergunta
Qual é a arritmia observada no ECG e qual deve ser a conduta inicial?
Resposta comentada
1) Diagnóstico eletrocardiográfico
O traçado mostra:
- Taquiarritmia completamente irregular
- QRS largo
- Morfologia dos QRS variável
- Ausência de ondas P organizadas
Esse padrão é altamente sugestivo de fibrilação atrial pré-excitada.
O diagnóstico diferencial inclui taquicardia ventricular polimórfica, mas a irregularidade extrema e a variação batimento a batimento do QRS favorecem FA com condução por via acessória.
2) Mecanismo eletrofisiológico
Na fibrilação atrial pré-excitada, o impulso atrial desorganizado conduz-se aos ventrículos predominantemente por uma via acessória com condução anterógrada, contornando o nó AV.
Isso resulta em:
- Frequências ventriculares muito elevadas
- QRS largos e variáveis
- Risco de degeneração para fibrilação ventricular
3) Conduta imediata
O paciente apresenta instabilidade hemodinâmica (hipotensão).
A conduta correta é:
- Cardioversão elétrica sincronizada imediata
Contraindicações importantes:
- Betabloqueadores
- Bloqueadores de canal de cálcio
- Digoxina
- Adenosina
Essas drogas reduzem a condução pelo nó AV e podem favorecer condução exclusiva pela via acessória, aumentando o risco de fibrilação ventricular.
4) ECG após cardioversão
ECG pós-cardioversão – ritmo sinusal com pré-excitação ventricular
Após a cardioversão, observa-se:
- Ritmo sinusal
- PR curto
- Onda delta
Achados compatíveis com pré-excitação ventricular manifesta, característica da síndrome de Wolff-Parkinson-White.
Pontos práticos
- Taquiarritmia irregular de QRS largo em jovem deve levantar suspeita de FA pré-excitada.
- Instabilidade → cardioversão imediata.
- Evitar drogas bloqueadoras do nó AV.
- Encaminhar para avaliação eletrofisiológica e ablação da via acessória.
Tags:

Dr. Matheus Kiszka Scheffer
Especialista em ECG
Médico Cardiologista e Arritmologista, com formação e atuação no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia. Autor e editor dos livros Eletrocardiograma de A a Z e Eletrocardiograma na Síndrome Coronária Aguda, dedica-se ao ensino estruturado e baseado em evidências do ECG. É fundador do Aprenda ECG e criador do curso Mestre do ECG, projetos voltados à formação prática e aprofundada na interpretação eletrocardiográfica.
Artigos Relacionados

Desafio ECG 8: Qual a causa desta taquicardia de QRS largo?
Caso clínico Homem de 68 anos, hipertenso, procura o pronto atendimento por palpitações de início súbito há 2 horas. Refere leve dispneia, sem dor tor...

Por que o ECG falha em detectar hipertrofia ventricular esquerda?
A hipertrofia ventricular esquerda no ECG sempre foi um território de frustração clínica. Apesar de décadas de uso, os critérios eletrocardiográficos...

Onda Delta
A onda delta no ECG é a manifestação eletrocardiográfica da pré-excitação ventricular. Ela indica que parte do miocárdio ventricular está sendo ativad...

Como a Inteligência Artificial no ECG pode estimar a fração de ejeção do ventrículo esquerdo
A inteligência artificial aplicada ao ECG (AI-ECG) inaugurou uma nova possibilidade clínica: estimar a probabilidade de fração de ejeção do ventrículo...