Taquiarritmias

Algoritmo de Basel: passo a passo para diferenciar TV de TSV com aberrância

Dr. Matheus Kiszka Scheffer
Dr. Matheus Kiszka Scheffer
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29 de março de 20264 min de leitura0 visualizações
Algoritmo de Basel: passo a passo para diferenciar TV de TSV com aberrância
Algoritmo de Basel: passo a passo para diferenciar TV de TSV com aberrância

A diferenciação entre taquicardia ventricular (TV) e taquicardia supraventricular com aberrância (TSV-A) na taquicardia de QRS largo é um dos cenários mais críticos da eletrocardiografia clínica. Embora a maioria das taquicardias de QRS largo seja TV, a distinção nem sempre é intuitiva — e decisões equivocadas podem levar a terapias inadequadas.

O Algoritmo de Basel foi desenvolvido para tornar essa decisão mais simples e rápida. Diferentemente dos algoritmos clássicos baseados em critérios morfológicos complexos, ele utiliza três critérios objetivos, clínicos e eletrocardiográficos, com regra binária clara: dois ou mais critérios positivos definem TV.

O que é o Algoritmo de Basel

O Algoritmo de Basel é uma estratégia integrada que combina:

  • 1 critério clínico
  • 2 critérios eletrocardiográficos simples

O diagnóstico de TV é estabelecido quando ≥ 2 dos 3 critérios estão presentes.

Se apenas 0 ou 1 critério estiver positivo, o diagnóstico favorece TSV com aberrância.

A lógica é probabilística e cumulativa — não depende de análise morfológica sofisticada nem de múltiplos passos sequenciais.

Algoritmo de Basel para diagnóstico eletrocardiográfico das taquicardias de qrs largo

Algoritmo de Basel

Passo 1 – Avaliar risco clínico (Doença cardíaca estrutural)

O primeiro componente do Algoritmo de Basel é clínico.

Considera-se critério positivo quando há pelo menos uma das seguintes condições:

  • História prévia de infarto do miocárdio
  • Insuficiência cardíaca com fração de ejeção ≤ 35%
  • Presença de CDI ou TRC

A justificativa é direta: a probabilidade pré-teste de TV aumenta significativamente na presença de cardiopatia estrutural.

Na coorte de validação do estudo original, esse critério isolado apresentou sensibilidade de 84,7% e especificidade de 80,8%.

Na prática: se o paciente tem cardiopatia estrutural significativa, você já começa com um ponto para TV.

Passo 2 – Medir o tempo até o primeiro pico em D2

O segundo critério é eletrocardiográfico.

Avalia-se o tempo entre o início do QRS e a primeira mudança de polaridade (primeira deflexão positiva ou negativa) na derivação D2.

O critério é positivo quando:

Tempo até o primeiro pico em D2 > 40 ms

Como medir?

  • Identifique o início do QRS
  • Conte até a primeira deflexão significativa
  • 1 quadradinho pequeno = 40 ms

Se a primeira deflexão ultrapassa 1 quadradinho, o critério é positivo.

Fundamentação fisiológica

Na TSV com aberrância, a ativação inicial ocorre pelo sistema His–Purkinje, resultando em despolarização ventricular inicial rápida.

Na TV, a ativação inicial ocorre por condução célula a célula, mais lenta, atrasando o primeiro pico do QRS.

Esse parâmetro apresentou especificidade elevada no estudo original, sendo um dos pilares do algoritmo.

Passo 3 – Medir o tempo até o primeiro pico em aVR

O terceiro critério aplica exatamente o mesmo conceito, porém na derivação aVR.

Critério positivo quando:

Tempo até o primeiro pico em aVR > 40 ms

A lógica é idêntica:

  • Ativação inicial lenta favorece TV
  • Ativação inicial rápida favorece TSV-A

Na validação, esse foi o critério mais específico do algoritmo, com especificidade de 96,1%.

A utilização combinada de D2 e aVR reduz o impacto de dificuldades técnicas na mensuração em uma única derivação.

Desempenho diagnóstico

Na coorte de validação externa (203 episódios):

  • Sensibilidade: 93,3%
  • Especificidade: 90,4%
  • Acurácia: 92,6%

Resultados comparáveis aos algoritmos de Brugada e Vereckei, com aplicação mais rápida.

Em avaliação prática envolvendo médicos com diferentes níveis de treinamento, o algoritmo manteve boa acurácia e menor tempo para diagnóstico.

Limitações

Alguns cenários apresentam desempenho inferior, semelhante aos algoritmos clássicos:

  • TV fascicular
  • Taquicardias com pré-excitação
  • Taquicardias raras dependentes de vias acessórias

Além disso, a mensuração do tempo ao primeiro pico pode ser desafiadora em traçados ruidosos ou com início de QRS pouco definido.

Como qualquer algoritmo de taquicardia de QRS largo, ele não substitui julgamento clínico.

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Conclusão prática

O Algoritmo de Basel oferece uma abordagem objetiva, rápida e clinicamente aplicável para diferenciar TV de TSV com aberrância.

Três critérios.
Dois positivos definem TV.

Referências

1. Moccetti F, Yadava M, Latifi Y, Strebel I, Pavlovic N, Knecht S, et al. Simplified Integrated Clinical and Electrocardiographic Algorithm for Differentiation of Wide QRS-Complex Tachycardia: The Basel Algorithm. JACC Clin Electrophysiol. 2022;8(7):831-839. doi:10.1016/j.jacep.2022.03.017.

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Dr. Matheus Kiszka Scheffer

Dr. Matheus Kiszka Scheffer

Especialista em ECG

Médico Cardiologista e Arritmologista, com formação e atuação no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia. Autor e editor dos livros Eletrocardiograma de A a Z e Eletrocardiograma na Síndrome Coronária Aguda, dedica-se ao ensino estruturado e baseado em evidências do ECG. É fundador do Aprenda ECG e criador do curso Mestre do ECG, projetos voltados à formação prática e aprofundada na interpretação eletrocardiográfica.

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