Onde está o bloqueio? Anatomia funcional dos BAVs

Dr. Matheus Kiszka Scheffer
Dr. Matheus Kiszka Scheffer
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20 de fevereiro de 20265 min de leitura0 visualizações
Onde está o bloqueio? Anatomia funcional dos BAVs
Onde está o bloqueio? Anatomia funcional dos BAVs

O bloqueio atrioventricular (BAV) é tradicionalmente classificado em primeiro, segundo e terceiro graus. Essa classificação é útil do ponto de vista descritivo. No entanto, ela não responde à pergunta mais importante do ponto de vista fisiológico: onde está o bloqueio?

A anatomia funcional do sistema de condução determina o comportamento eletrocardiográfico dos BAVs. Mobitz I, Mobitz II, 2:1 ou bloqueio total são expressões elétricas de propriedades distintas do nó AV e do sistema His-Purkinje. Entender essas propriedades permite inferir, com maior precisão, a localização anatômica do distúrbio.

Este artigo tem foco exclusivamente conceitual: discutir como as características eletrofisiológicas de cada segmento do sistema de condução explicam os diferentes padrões de bloqueio observados no ECG.

Anatomia funcional do sistema de condução

O impulso elétrico percorre uma sequência organizada:

  • Nó sinusal
  • Miocárdio atrial
  • Nó atrioventricular (nó AV)
  • Feixe de His
  • Ramos direito e esquerdo
  • Rede de Purkinje
Sistema de condução elétrica do coração com nó sinusal, nó atrioventricular e sistema His-Purkinje

Sistema de Condução do Coração

Do ponto de vista anatômico e eletrofisiológico, o sistema pode ser dividido em três grandes territórios quando pensamos em BAV:

  • Supra-His (nodal)
  • Intra-His
  • Infra-His (sistema His-Purkinje distal)

Cada um desses segmentos possui propriedades próprias de condução.

O nó AV: condução decremental

O nó AV é composto por fibras com condução lenta e dependente do cálcio. Sua principal característica eletrofisiológica é a condução decremental: quanto mais precoce ou frequente o estímulo, maior o atraso na condução.

  • Filtrar frequências atriais elevadas
  • Garantir tempo adequado de enchimento ventricular
  • Permitir adaptação autonômica rápida

No ECG de superfície, a atividade do nó AV é representada majoritariamente pelo intervalo PR.

O sistema His-Purkinje: condução rápida e não decremental

Diferentemente do nó AV, o sistema His-Purkinje apresenta:

  • Condução rápida
  • Dependência de canais rápidos de sódio
  • Comportamento do tipo “tudo ou nada”

Não há, em condições fisiológicas, condução decremental significativa nesse território. Quando ocorre bloqueio, ele tende a ser súbito, sem prolongamento progressivo prévio.

Bloqueio nodal (supra-Hissiano)

O bloqueio nodal ocorre no interior do nó AV ou na transição nodal-His proximal.

Base fisiológica

Como o nó AV apresenta condução decremental, o aumento progressivo do atraso de condução é uma consequência natural de sua fisiologia. Assim, quando observamos:

  • Prolongamento progressivo do PR
  • Batimentos agrupados
  • Pausas menores que dois intervalos RR prévios

estamos observando a expressão elétrica de uma propriedade nodal.

O fenômeno de Wenckebach é, portanto, a manifestação clássica de bloqueio nodal.

Expressão eletrocardiográfica típica

  • QRS estreito
  • Intervalo PR variável ou progressivamente prolongado
  • Ritmo de escape juncional em casos de bloqueio total nodal

Do ponto de vista conceitual, o bloqueio nodal reflete uma alteração quantitativa da condução (mais lenta), e não uma falha abrupta estrutural.

Bloqueio intra-His: a zona intermediária

Entre o nó AV e os ramos ventriculares existe um segmento curto, porém funcionalmente relevante: o feixe de His.

O bloqueio intra-His é menos intuitivo no ECG de superfície. Pode apresentar características mistas:

  • PR fixo ou discretamente prolongado
  • QRS estreito ou discretamente alargado
  • Padrões que simulam Mobitz I ou Mobitz II

O ECG convencional não registra diretamente a atividade do feixe de His. A distinção definitiva entre bloqueio nodal e intra-His frequentemente requer estudo eletrofisiológico invasivo.

Bloqueio infra-His (sistema His-Purkinje)

O bloqueio infra-His envolve os ramos direito e esquerdo ou o sistema de Purkinje distal.

Base fisiológica

Como o sistema His-Purkinje não apresenta condução decremental significativa, sua falha tende a ocorrer de forma abrupta. Assim, no ECG observamos:

  • Intervalo PR fixo antes da falha
  • Onda P súbita não conduzida
  • Ausência de prolongamento progressivo prévio

Esse comportamento é típico do padrão descrito como Mobitz II.

Bloqueio atrioventricular total e a origem do escape

No bloqueio AV de terceiro grau, a localização anatômica pode ser inferida pela morfologia e frequência do ritmo de escape.

  • Escape juncional: QRS estreito, frequência mais elevada → sugere bloqueio nodal
  • Escape ventricular: QRS alargado, frequência mais baixa → sugere bloqueio infra-His

Quanto mais distal o bloqueio, mais lento tende a ser o ritmo de escape.

O padrão 2:1 e os limites do ECG

No bloqueio 2:1, a cada duas ondas P uma é conduzida. Não é possível observar se haveria prolongamento progressivo do PR, o que impede a classificação direta como Mobitz I ou II.

Do ponto de vista anatômico, o bloqueio 2:1 pode ser nodal, intra-His ou infra-His.

Inferência anatômica: raciocínio probabilístico

  • Condução decremental sugere nó AV
  • Falha súbita com PR fixo sugere sistema His-Purkinje
  • QRS alargado aumenta probabilidade de bloqueio distal
  • Ritmo de escape lento e ventricular sugere bloqueio infra-His

A localização anatômica do BAV pelo ECG é probabilística, baseada nas propriedades eletrofisiológicas de cada segmento.

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Conclusão

A classificação tradicional descreve o que vemos no ECG. A localização anatômica explica por que vemos.

Perguntar “onde está o bloqueio?” é substituir a descrição eletrocardiográfica por um raciocínio fisiológico.

Referências

1. Scheffer MK, De Marchi MFN, de Alencar Neto JN, Felicioni SP. Eletrocardiograma de A a Z . São Paulo: Manole; 2024.

2. Samesima N, God EG, Kruse JCL, Leal MG, et al. Diretriz da Sociedade Brasileira de Cardiologia sobre a Análise e Emissão de Laudos Eletrocardiográficos – 2022 . Arq Bras Cardiol. 2022;93(3 Suppl 2):2–19.

3. Kusumoto FM, Schoenfeld MH, Barrett C, Edgerton JR, et al. 2018 ACC/AHA/HRS Guideline on the Evaluation and Management of Patients With Bradycardia and Cardiac Conduction Delay . J Am Coll Cardiol. 2019;74(7):e51–156.

4. Issa Z, Miller J, Zipes D. Clinical Arrhythmology and Electrophysiology: A Companion to Braunwald’s Heart Disease . 3a ed. Philadelphia: Elsevier; 2019.

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Dr. Matheus Kiszka Scheffer

Dr. Matheus Kiszka Scheffer

Especialista em ECG

Médico Cardiologista e Arritmologista, com formação e atuação no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia. Autor e editor dos livros Eletrocardiograma de A a Z e Eletrocardiograma na Síndrome Coronária Aguda, dedica-se ao ensino estruturado e baseado em evidências do ECG. É fundador do Aprenda ECG e criador do curso Mestre do ECG, projetos voltados à formação prática e aprofundada na interpretação eletrocardiográfica.

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