Onda T

A onda T no ECG representa a repolarização ventricular. Parece simples — e é exatamente por isso que costuma ser mal interpretada.
Ao contrário do complexo QRS, que reflete um fenômeno elétrico relativamente uniforme e rápido, a repolarização ventricular é heterogênea, dinâmica e altamente dependente do potencial de ação miocárdico. A morfologia da onda T, portanto, carrega informação fisiopatológica real.
Este artigo organiza a análise da onda T de forma sistemática, começando pela distinção fundamental entre alterações primárias e secundárias, e avançando pelas principais morfologias clínicas.
Onda T.
Alterações primárias e secundárias da onda T
Antes de discutir qualquer morfologia específica, é obrigatório estabelecer a base conceitual.
A classificação das alterações da repolarização em primárias e secundárias não é semântica. É fisiopatológica.
Alterações primárias
São aquelas decorrentes de modificação direta do potencial de ação ventricular.
Ou seja, a forma e/ou duração da fase 2 e 3 do potencial de ação foram alteradas. A repolarização mudou porque a célula mudou.
- Tendência à simetria da onda T
- Base alargada
- Alteração da duração do QT (encurtamento ou prolongamento)
- Concordância ou discordância não dependente do QRS prévio
Exemplos clássicos:
- Isquemia miocárdica
- Hipercalemia
- Pericardite
- Canalopatias
Alterações secundárias
Aqui, a repolarização está alterada porque a despolarização foi alterada antes.
- Onda T assimétrica
- Discordância previsível com o QRS
- QT geralmente preservado
- Relação espacial direta com a polaridade do QRS
- Bloqueio de ramo
- Sobrecarga ventricular com padrão strain
- Pré-excitação
Avaliação da repolarização ventricular: onda T simétrica e assimétrica.
Onda T normal
- Assimétrica (ascensão lenta, descida mais rápida)
- Concordante com o QRS na maioria das derivações
- Amplitude geralmente < 5 mm em membros e < 10 mm em precordiais
- Maior em V2–V4
- Negativa em aVR
A onda T normal não é simétrica. Simetria excessiva deve chamar atenção.
Onda T hiperaguda
A onda T hiperaguda é a manifestação eletrocardiográfica mais precoce da oclusão coronariana aguda.
Ela é uma alteração primária.
- Aumento de amplitude
- Base alargada
- Simetria aumentada
- Relação desproporcional com o QRS
O conceito moderno vai além da amplitude isolada. O estudo de Meyers et al. demonstrou que a característica central da onda T hiperaguda é o aumento da magnitude da área da onda T em relação à amplitude do QRS, associado ao aumento da simetria.
Ela representa encurtamento do potencial de ação epicárdico com aumento da dispersão transmural.
Onda T da hipercalemia
Também é uma alteração primária.
- Apiculada
- Base estreita
- Simétrica
- QT encurtado
Na hipercalemia, há aceleração da fase 3 do potencial de ação por aumento da condutância do IKr.
Onda T bifásica (plus-minus)
- Componente inicial positivo
- Componente terminal negativo
Indica transição do gradiente de repolarização e pode estar associada a isquemia subaguda ou fenômenos dinâmicos de reperfusão.
Onda T negativa
A negatividade da onda T deve ser analisada sob dois eixos:
- É primária ou secundária?
- É simétrica ou assimétrica?
Onda T negativa primária
- Simétrica
- Base larga
- Pode associar-se a alteração do QT
Onda T negativa secundária
- Assimétrica
- Discordante do QRS
- QT geralmente normal
Pode ocorrer na cardiomiopatia hipertrófica, em bloqueios de ramo e em padrões de sobrecarga ventricular.
Referências
1. De Alencar JN, Matos VFA, Scheffer MK, et al. ST segment and T wave abnormalities: A narrative review. J Electrocardiol. 2024;85:7-15.
2. Meyers HP, Simančík F, Herman R, et al. Hyperacute T Waves Are Specific for Occlusion Myocardial Infarction, Even Without Diagnostic ST-Segment Elevation. JACC Adv. 2025;4(10):102120.

Dr. Matheus Kiszka Scheffer
Especialista em ECG
Médico Cardiologista e Arritmologista, com formação e atuação no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia. Autor e editor dos livros Eletrocardiograma de A a Z e Eletrocardiograma na Síndrome Coronária Aguda, dedica-se ao ensino estruturado e baseado em evidências do ECG. É fundador do Aprenda ECG e criador do curso Mestre do ECG, projetos voltados à formação prática e aprofundada na interpretação eletrocardiográfica.
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