Ondas, Segmentos e Intervalos do ECG

Onda T

Dr. Matheus Kiszka Scheffer
Dr. Matheus Kiszka Scheffer
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25 de maio de 20263 min de leitura0 visualizações
Onda T
Onda T

A onda T no ECG representa a repolarização ventricular. Parece simples — e é exatamente por isso que costuma ser mal interpretada.

Ao contrário do complexo QRS, que reflete um fenômeno elétrico relativamente uniforme e rápido, a repolarização ventricular é heterogênea, dinâmica e altamente dependente do potencial de ação miocárdico. A morfologia da onda T, portanto, carrega informação fisiopatológica real.

Este artigo organiza a análise da onda T de forma sistemática, começando pela distinção fundamental entre alterações primárias e secundárias, e avançando pelas principais morfologias clínicas.

Representação da onda T no eletrocardiograma

Onda T.

Alterações primárias e secundárias da onda T

Antes de discutir qualquer morfologia específica, é obrigatório estabelecer a base conceitual.

A classificação das alterações da repolarização em primárias e secundárias não é semântica. É fisiopatológica.

Alterações primárias

São aquelas decorrentes de modificação direta do potencial de ação ventricular.

Ou seja, a forma e/ou duração da fase 2 e 3 do potencial de ação foram alteradas. A repolarização mudou porque a célula mudou.

  • Tendência à simetria da onda T
  • Base alargada
  • Alteração da duração do QT (encurtamento ou prolongamento)
  • Concordância ou discordância não dependente do QRS prévio

Exemplos clássicos:

  • Isquemia miocárdica
  • Hipercalemia
  • Pericardite
  • Canalopatias

Alterações secundárias

Aqui, a repolarização está alterada porque a despolarização foi alterada antes.

  • Onda T assimétrica
  • Discordância previsível com o QRS
  • QT geralmente preservado
  • Relação espacial direta com a polaridade do QRS
  • Bloqueio de ramo
  • Sobrecarga ventricular com padrão strain
  • Pré-excitação
Comparação entre onda T simétrica e onda T assimétrica na avaliação da repolarização ventricular

Avaliação da repolarização ventricular: onda T simétrica e assimétrica.

Onda T normal

  • Assimétrica (ascensão lenta, descida mais rápida)
  • Concordante com o QRS na maioria das derivações
  • Amplitude geralmente < 5 mm em membros e < 10 mm em precordiais
  • Maior em V2–V4
  • Negativa em aVR

A onda T normal não é simétrica. Simetria excessiva deve chamar atenção.

Onda T hiperaguda

A onda T hiperaguda é a manifestação eletrocardiográfica mais precoce da oclusão coronariana aguda.

Ela é uma alteração primária.

  • Aumento de amplitude
  • Base alargada
  • Simetria aumentada
  • Relação desproporcional com o QRS

O conceito moderno vai além da amplitude isolada. O estudo de Meyers et al. demonstrou que a característica central da onda T hiperaguda é o aumento da magnitude da área da onda T em relação à amplitude do QRS, associado ao aumento da simetria.

Ela representa encurtamento do potencial de ação epicárdico com aumento da dispersão transmural.

Onda T da hipercalemia

Também é uma alteração primária.

  • Apiculada
  • Base estreita
  • Simétrica
  • QT encurtado

Na hipercalemia, há aceleração da fase 3 do potencial de ação por aumento da condutância do IKr.

Onda T bifásica (plus-minus)

  • Componente inicial positivo
  • Componente terminal negativo

Indica transição do gradiente de repolarização e pode estar associada a isquemia subaguda ou fenômenos dinâmicos de reperfusão.

Onda T negativa

A negatividade da onda T deve ser analisada sob dois eixos:

  • É primária ou secundária?
  • É simétrica ou assimétrica?

Onda T negativa primária

  • Simétrica
  • Base larga
  • Pode associar-se a alteração do QT

Onda T negativa secundária

  • Assimétrica
  • Discordante do QRS
  • QT geralmente normal

Pode ocorrer na cardiomiopatia hipertrófica, em bloqueios de ramo e em padrões de sobrecarga ventricular.

Referências

1. De Alencar JN, Matos VFA, Scheffer MK, et al. ST segment and T wave abnormalities: A narrative review. J Electrocardiol. 2024;85:7-15.

2. Meyers HP, Simančík F, Herman R, et al. Hyperacute T Waves Are Specific for Occlusion Myocardial Infarction, Even Without Diagnostic ST-Segment Elevation. JACC Adv. 2025;4(10):102120.

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Dr. Matheus Kiszka Scheffer

Dr. Matheus Kiszka Scheffer

Especialista em ECG

Médico Cardiologista e Arritmologista, com formação e atuação no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia. Autor e editor dos livros Eletrocardiograma de A a Z e Eletrocardiograma na Síndrome Coronária Aguda, dedica-se ao ensino estruturado e baseado em evidências do ECG. É fundador do Aprenda ECG e criador do curso Mestre do ECG, projetos voltados à formação prática e aprofundada na interpretação eletrocardiográfica.

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