Onda U

A onda U no ECG é a última deflexão do ciclo elétrico ventricular visível no eletrocardiograma (ECG) de superfície. Surge após a onda T e antes da próxima onda P, sendo tradicionalmente considerada um fenômeno relacionado à fase final da repolarização ventricular.
Embora descrita há mais de um século, sua origem eletrofisiológica permanece parcialmente controversa. Na prática clínica, costuma ser ignorada — o que é um erro quando sua morfologia está alterada.
Onda U.
Definição e características eletrocardiográficas
A onda U apresenta características relativamente constantes no ECG normal:
- Localiza-se após a onda T e antes da próxima onda P
- Geralmente tem a mesma polaridade da onda T
- Amplitude < 25% da amplitude da T
- Altura habitual < 0,15 mV
- Duração aproximada de 160–200 ms
- Melhor visualizada nas derivações precordiais V2 e V3
É mais evidente em frequências cardíacas baixas, sendo observada em mais de 90% dos ECGs com FC < 65 bpm. Em frequências elevadas pode fundir-se com a onda P subsequente.
Critérios de anormalidade incluem:
- Amplitude ≥ 0,5 mV
- Amplitude igual ou superior à onda T precedente
- Inversão da polaridade (onda U negativa)
Fisiopatologia da onda U
A origem da onda U ainda não é definitivamente estabelecida. Três mecanismos principais são propostos.
1. Repolarização tardia das células M
A teoria mais difundida relaciona a onda U à dispersão transmural da repolarização ventricular, especialmente às células M do miocárdio médio.
Essas células apresentam potencial de ação mais prolongado que células epicárdicas e endocárdicas. O gradiente elétrico tardio entre essas camadas poderia gerar a deflexão correspondente à onda U.
Essa hipótese explica:
- Relação com QT longo
- Associação com pós-potenciais precoces (EAD)
- Maior proeminência na hipocalemia
Limitação: a diferença de duração do potencial de ação isoladamente pode não justificar toda a morfologia observada no ECG de superfície.
2. Modulação por corrente IK1
Estudos mais recentes sugerem que a onda U possa refletir diferenças de potencial dependentes da corrente retificadora interna de potássio (IK1), particularmente na fase terminal da repolarização (fase 3/4).
Alterações genéticas ou funcionais nessa corrente modulam morfologia, amplitude e polaridade da onda U.
Essa hipótese reforça que a onda U faz parte do processo de repolarização e não de fenômeno mecânico isolado.
3. Hipótese mecanoelétrica
Propõe que a onda U resulte de pós-potenciais gerados pelo estiramento miocárdico durante o relaxamento ventricular.
Embora atraente, evidências modernas sugerem que esse mecanismo não explica a onda U fisiológica normal, podendo ter papel apenas em situações patológicas com sobrecarga ventricular.
Síntese prática: é provável que a onda U fisiológica e a onda U patológica não compartilhem exatamente o mesmo mecanismo.
Alterações da onda U
Onda U proeminente
Principais causas:
- Hipocalemia (clássica)
- Bradicardia
- Síndrome do QT longo (congênita ou adquirida)
- Fármacos com efeito quinidina-like
- Uso de digitalis
Na hipocalemia, o complexo T–U pode representar uma repolarização ventricular anormalmente prolongada, e não uma “onda U verdadeira” isolada.
O aumento da amplitude da onda U está associado à maior instabilidade elétrica e pode preceder torsades de pointes quando associado a QT prolongado.
Onda U negativa
A inversão da onda U é altamente específica para doença cardíaca estrutural.
Principais associações:
- Isquemia miocárdica (especialmente anterior)
- Hipertrofia ventricular esquerda
- Hipertensão arterial
- Sobrecarga de ventrículo esquerdo
- Doença valvar aórtica
Mudanças dinâmicas na polaridade da onda U podem preceder alterações do segmento ST em episódios de isquemia.
A presença de onda U negativa está associada a pior prognóstico em homens, incluindo maior mortalidade cardiovascular.
Fusão T–U e impacto na medida do QT
A distinção entre término da onda T e início da onda U pode ser difícil.
Quando há fusão T–U:
- Pode ocorrer superestimação do intervalo QT
- Em alguns contextos deve-se considerar o intervalo QU
- A análise deve sempre correlacionar com contexto clínico e morfologia global
Pontos práticos na interpretação
- Compare sempre com ECG prévio
- Onda U nova ou invertida merece investigação
- Bradicardia + onda U alta → pesquisar hipocalemia
- Onda U negativa em V4–V6 tem alto valor para doença estrutural
- Em dor torácica, alterações de onda U podem representar isquemia precoce
A onda U raramente é valorizada na rotina, mas quando alterada carrega informação clínica relevante.
Referências
1. Kihlgren M, Almqvist C, Amankhani F, et al. The U-wave: A remaining enigma of the electrocardiogram. J Electrocardiol. 2023;79:13-20. DOI: 10.1016/j.jelectrocard.2023.03.001.
2. Rautaharju PM, Surawicz B, Gettes LS, et al. AHA/ACCF/HRS recommendations for the standardization and interpretation of the electrocardiogram: part IV: the ST segment, T and U waves, and the QT interval. J Am Coll Cardiol. 2009;53(11):982-991. DOI: 10.1016/j.jacc.2008.12.014.
3. Antzelevitch C, Sicouri S. Clinical relevance of cardiac arrhythmias generated by afterdepolarizations. Role of M cells in the generation of U waves, triggered activity and torsade de pointes. J Am Coll Cardiol. 1994;23(1):259-277. DOI: 10.1016/0735-1097(94)90529-0.
4. Postema PG, Ritsema van Eck HJ, Opthof T, et al. IK1 modulates the U-wave: insights in a 100-year-old enigma. Heart Rhythm. 2009;6(3):393-400. DOI: 10.1016/j.hrthm.2008.11.024.
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Dr. Matheus Kiszka Scheffer
Especialista em ECG
Médico Cardiologista e Arritmologista, com formação e atuação no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia. Autor e editor dos livros Eletrocardiograma de A a Z e Eletrocardiograma na Síndrome Coronária Aguda, dedica-se ao ensino estruturado e baseado em evidências do ECG. É fundador do Aprenda ECG e criador do curso Mestre do ECG, projetos voltados à formação prática e aprofundada na interpretação eletrocardiográfica.
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