Ondas, Segmentos e Intervalos do ECG

Onda Delta

Dr. Matheus Kiszka Scheffer
Dr. Matheus Kiszka Scheffer
Autor
06 de julho de 20264 min de leitura0 visualizações
Onda Delta
Onda Delta

A onda delta no ECG é a manifestação eletrocardiográfica da pré-excitação ventricular. Ela indica que parte do miocárdio ventricular está sendo ativada antes do que ocorreria pela condução fisiológica através do nó atrioventricular (AV).

Do ponto de vista conceitual, a onda delta não é apenas um achado morfológico. Ela é a expressão elétrica de um substrato anatômico específico: a presença de uma via acessória AV.

Onda delta no eletrocardiograma caracterizando pré-excitação ventricular

Onda delta

Conceito Eletrofisiológico

Na condução normal:

  • O impulso nasce no nó sinusal
  • Percorre os átrios
  • Sofre atraso fisiológico no nó AV
  • Desce rapidamente pelo sistema His–Purkinje
  • Ativa simultaneamente os ventrículos

Na pré-excitação ventricular existe uma via acessória que conecta átrio e ventrículo, permitindo que parte do estímulo “ignore” o atraso nodal.

Resultado:

  • Uma região ventricular é ativada precocemente
  • O restante do ventrículo é ativado pela via normal
  • Forma-se um complexo de fusão

A onda delta representa exatamente essa ativação inicial lenta, célula a célula, fora do sistema His–Purkinje.

Onda delta no ECG demonstrando pré-excitação ventricular por via acessória

Vias acessórias e pré-excitação ventricular

Critérios Eletrocardiográficos da Pré-excitação Ventricular

A pré-excitação manifesta-se por um conjunto de achados:

  • Intervalo PR < 120 ms
  • Empastamento da porção inicial do QRS (onda delta)
  • QRS ≥ 120 ms (geralmente)
  • Alterações secundárias da repolarização

É fundamental observar o início do QRS em múltiplas derivações. A análise isolada de uma única derivação é insuficiente.

Eletrocardiograma com pré-excitação ventricular evidenciando onda delta

Pré-excitação ventricular.

Por Que o PR Encurta?

O encurtamento do PR ocorre porque parte do ventrículo começa a ser ativada antes da conclusão da condução pelo nó AV.

Importante:

Nem todo PR curto significa pré-excitação.

No PR curto isolado, sem onda delta, não há evidência de ativação ventricular precoce.

A presença da onda delta é o que confirma a pré-excitação.

Grau de Pré-excitação

A expressão da onda delta depende de três fatores principais:

  • Velocidade de condução pelo nó AV
  • Velocidade de condução pela via acessória
  • Distância anatômica do foco atrial até cada via

Quanto mais rápida a via acessória e mais lenta a condução nodal, maior será o grau de pré-excitação.

Por isso a onda delta pode ser:

  • Evidente
  • Discreta
  • Intermitente
  • Ausente em determinados momentos

A chamada pré-excitação intermitente ocorre quando há alternância entre condução normal e condução pela via acessória.

Tipos de Pré-excitação

Pré-excitação Aparente

Presença clara de onda delta no ECG basal.

Pré-excitação Intermitente

A onda delta desaparece em determinados momentos, geralmente por variação do tônus autonômico.

Via Acessória Oculta

Condução exclusivamente retrógrada.

O ECG em ritmo sinusal é normal.

Essas vias podem participar de circuitos de reentrada, mas não produzem onda delta.

Eletrocardiograma com pré-excitação ventricular evidenciando onda delta e encurtamento do PR

ECG com pré-excitação ventricular

Síndrome de Wolff-Parkinson-White

É fundamental diferenciar:

  • Padrão de pré-excitação: onda delta no ECG sem arritmia documentada
  • Síndrome de Wolff-Parkinson-White: pré-excitação + taquiarritmia sintomática

A taquicardia por reentrada atrioventricular (TRAV) é a manifestação mais frequente.

Durante a TRAV ortodrômica:

  • O QRS é estreito
  • A onda delta desaparece

Na TRAV antidrômica:

  • O QRS é largo
  • Pode simular taquicardia ventricular (TV)

Localização da Via Acessória – Algoritmo EPM

A polaridade da onda delta permite estimar a localização da via acessória ainda no ritmo sinusal.

O Algoritmo EPM (Esquerda–Posterior–Migração) é uma estratégia prática baseada em três perguntas sequenciais:

Algoritmo EPM utilizado para localização de vias acessórias no eletrocardiograma

Algoritmo EPM

1. E – Esquerda ou direita?

Avaliar D1/aVL e V1:

  • Delta negativa em D1 ou aVL e/ou R > S em V1 → sugere via esquerda
  • Ausência desses achados → sugere via direita

2. P – Posterior ou anterior?

Avaliar D3:

  • Delta negativa → posterior
  • Delta positiva → anterior

3. M – Migração precordial (vias direitas)

Avaliar a transição da onda R:

  • Antes de V3 → septal direita
  • Em V4 ou após → lateral direita

Com esses três passos é possível estimar a região da via com boa acurácia clínica.

Os locais mais frequentes continuam sendo:

  • Parede livre esquerda
  • Região posterosseptal

Para entendimento detalhado, ver artigo específico sobre o algoritmo EPM.

Onda Delta: Erros Comuns

  • Confundir com bloqueio de ramo
  • Interpretar como infarto antigo
  • Valorizar PR curto isolado
  • Ignorar alterações secundárias da repolarização

A análise sistemática evita esses equívocos.

Conclusão

A onda delta no ECG é a expressão da ativação ventricular precoce por via acessória.

Ela resulta da fusão entre:

  • Despolarização lenta inicial (via acessória)
  • Despolarização rápida subsequente (His–Purkinje)

Compreender seu mecanismo é mais importante do que apenas reconhecê-la visualmente.

Referências

Compartilhar:

Dr. Matheus Kiszka Scheffer

Dr. Matheus Kiszka Scheffer

Especialista em ECG

Médico Cardiologista e Arritmologista, com formação e atuação no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia. Autor e editor dos livros Eletrocardiograma de A a Z e Eletrocardiograma na Síndrome Coronária Aguda, dedica-se ao ensino estruturado e baseado em evidências do ECG. É fundador do Aprenda ECG e criador do curso Mestre do ECG, projetos voltados à formação prática e aprofundada na interpretação eletrocardiográfica.

Artigos Relacionados

Quer se aprofundar no ECG?

Conheça o Curso Mestre do ECG, o mais completo curso de eletrocardiografia do Brasil, com 2035+ minutos de conteúdo.

Conhecer o Curso