Onda Delta

A onda delta no ECG é a manifestação eletrocardiográfica da pré-excitação ventricular. Ela indica que parte do miocárdio ventricular está sendo ativada antes do que ocorreria pela condução fisiológica através do nó atrioventricular (AV).
Do ponto de vista conceitual, a onda delta não é apenas um achado morfológico. Ela é a expressão elétrica de um substrato anatômico específico: a presença de uma via acessória AV.
Onda delta
Conceito Eletrofisiológico
Na condução normal:
- O impulso nasce no nó sinusal
- Percorre os átrios
- Sofre atraso fisiológico no nó AV
- Desce rapidamente pelo sistema His–Purkinje
- Ativa simultaneamente os ventrículos
Na pré-excitação ventricular existe uma via acessória que conecta átrio e ventrículo, permitindo que parte do estímulo “ignore” o atraso nodal.
Resultado:
- Uma região ventricular é ativada precocemente
- O restante do ventrículo é ativado pela via normal
- Forma-se um complexo de fusão
A onda delta representa exatamente essa ativação inicial lenta, célula a célula, fora do sistema His–Purkinje.
Vias acessórias e pré-excitação ventricular
Critérios Eletrocardiográficos da Pré-excitação Ventricular
A pré-excitação manifesta-se por um conjunto de achados:
- Intervalo PR < 120 ms
- Empastamento da porção inicial do QRS (onda delta)
- QRS ≥ 120 ms (geralmente)
- Alterações secundárias da repolarização
É fundamental observar o início do QRS em múltiplas derivações. A análise isolada de uma única derivação é insuficiente.
Pré-excitação ventricular.
Por Que o PR Encurta?
O encurtamento do PR ocorre porque parte do ventrículo começa a ser ativada antes da conclusão da condução pelo nó AV.
Importante:
Nem todo PR curto significa pré-excitação.
No PR curto isolado, sem onda delta, não há evidência de ativação ventricular precoce.
A presença da onda delta é o que confirma a pré-excitação.
Grau de Pré-excitação
A expressão da onda delta depende de três fatores principais:
- Velocidade de condução pelo nó AV
- Velocidade de condução pela via acessória
- Distância anatômica do foco atrial até cada via
Quanto mais rápida a via acessória e mais lenta a condução nodal, maior será o grau de pré-excitação.
Por isso a onda delta pode ser:
- Evidente
- Discreta
- Intermitente
- Ausente em determinados momentos
A chamada pré-excitação intermitente ocorre quando há alternância entre condução normal e condução pela via acessória.
Tipos de Pré-excitação
Pré-excitação Aparente
Presença clara de onda delta no ECG basal.
Pré-excitação Intermitente
A onda delta desaparece em determinados momentos, geralmente por variação do tônus autonômico.
Via Acessória Oculta
Condução exclusivamente retrógrada.
O ECG em ritmo sinusal é normal.
Essas vias podem participar de circuitos de reentrada, mas não produzem onda delta.
ECG com pré-excitação ventricular
Síndrome de Wolff-Parkinson-White
É fundamental diferenciar:
- Padrão de pré-excitação: onda delta no ECG sem arritmia documentada
- Síndrome de Wolff-Parkinson-White: pré-excitação + taquiarritmia sintomática
A taquicardia por reentrada atrioventricular (TRAV) é a manifestação mais frequente.
Durante a TRAV ortodrômica:
- O QRS é estreito
- A onda delta desaparece
Na TRAV antidrômica:
- O QRS é largo
- Pode simular taquicardia ventricular (TV)
Localização da Via Acessória – Algoritmo EPM
A polaridade da onda delta permite estimar a localização da via acessória ainda no ritmo sinusal.
O Algoritmo EPM (Esquerda–Posterior–Migração) é uma estratégia prática baseada em três perguntas sequenciais:
Algoritmo EPM
1. E – Esquerda ou direita?
Avaliar D1/aVL e V1:
- Delta negativa em D1 ou aVL e/ou R > S em V1 → sugere via esquerda
- Ausência desses achados → sugere via direita
2. P – Posterior ou anterior?
Avaliar D3:
- Delta negativa → posterior
- Delta positiva → anterior
3. M – Migração precordial (vias direitas)
Avaliar a transição da onda R:
- Antes de V3 → septal direita
- Em V4 ou após → lateral direita
Com esses três passos é possível estimar a região da via com boa acurácia clínica.
Os locais mais frequentes continuam sendo:
- Parede livre esquerda
- Região posterosseptal
Para entendimento detalhado, ver artigo específico sobre o algoritmo EPM.
Onda Delta: Erros Comuns
- Confundir com bloqueio de ramo
- Interpretar como infarto antigo
- Valorizar PR curto isolado
- Ignorar alterações secundárias da repolarização
A análise sistemática evita esses equívocos.
Conclusão
A onda delta no ECG é a expressão da ativação ventricular precoce por via acessória.
Ela resulta da fusão entre:
- Despolarização lenta inicial (via acessória)
- Despolarização rápida subsequente (His–Purkinje)
Compreender seu mecanismo é mais importante do que apenas reconhecê-la visualmente.
Referências
- Scheffer MK, De Marchi MFN, de Alencar Neto JN, Felicioni SP. Eletrocardiograma de A a Z . São Paulo: Manole; 2024.
- Scheffer MK, Ohe LN, de Alencar Neto JN. Manual Prático de Eletrocardiograma . 2022.
- Alencar Neto JN de. Tratado de ECG . Salvador: Sanar; 2022.
- Alencar Neto JN, Sakai MH, de Almeida Neto RG, Scheffer MK, Alencar e Silva GPS, Cirenza C, et al. EPM algorithm: A stepwise approach to accessory pathway localization in ventricular pre-excitation . J Electrocardiol. 2024;84:1–8.
- Arruda MS, McClelland JH, Wang X, et al. Development and Validation of an ECG Algorithm for Identifying Accessory Pathway Ablation Site in Wolff-Parkinson-White Syndrome . J Cardiovasc Electrophysiol. 1998;9(1):2–12.

Dr. Matheus Kiszka Scheffer
Especialista em ECG
Médico Cardiologista e Arritmologista, com formação e atuação no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia. Autor e editor dos livros Eletrocardiograma de A a Z e Eletrocardiograma na Síndrome Coronária Aguda, dedica-se ao ensino estruturado e baseado em evidências do ECG. É fundador do Aprenda ECG e criador do curso Mestre do ECG, projetos voltados à formação prática e aprofundada na interpretação eletrocardiográfica.
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