Complexo QRS

O complexo QRS representa a despolarização ventricular e é a principal assinatura elétrica da massa miocárdica no eletrocardiograma (ECG). Sua análise permite avaliar condução intraventricular, presença de necrose, sobrecargas e alterações estruturais.
Este resumo esquemático integra os conceitos fundamentais necessários para interpretar o complexo QRS dentro de uma abordagem morfológica sistemática.
Complexo QRS.
Ativação Ventricular
Após o atraso fisiológico no nó AV, o estímulo percorre rapidamente o sistema His-Purkinje, promovendo ativação ventricular coordenada no sentido ápice–base.
A ativação ventricular pode ser compreendida em três vetores principais:
1. Vetor Septal (inicial – 10 a 15 ms)
- Direção: esquerda → direita e anteriormente
- Corresponde à despolarização do septo interventricular
- Gera:
- Pequena onda r em V1
- Pequena onda q em D1, aVL, V5 e V6
2. Vetor da Parede Livre (30 a 40 ms)
- Direção: esquerda, inferior e posterior
- Representa a ativação predominante do ventrículo esquerdo
- É responsável pela maior parte da amplitude do QRS
- Gera:
- Onda S em V1
- Onda R alta em V5 e V6
3. Vetor Basal (final – 20 a 30 ms)
- Direção: superior, direita e posterior
- Pode gerar:
- Pequenas ondas s em derivações laterais
- r’ terminal em V1
A soma vetorial desses três momentos forma o complexo QRS observado no ECG de superfície.
Ativação ventricular. Os principais vetores resultantes da despolarização ventricular são: 1. vetor septal médio; 2. vetor da parede livre do VE; e 3. vetor das porções basais.
Formação das Ondas do Complexo QRS
Onda Q
- Primeira deflexão negativa do complexo
- Pode ser fisiológica ou patológica
Onda Q fisiológica (septal):
- Pequena
- Estreita (< 30 ms)
- Profundidade < 25% da onda R
- Presente em D1, aVL, V5 e V6
Onda Q patológica:
- Mais larga e profunda
- Sugere Áreas Eletricamente Inativas (necrose/fibrose)
- Deve estar presente em pelo menos duas derivações contíguas
Critérios detalhados são discutidos no artigo de Áreas Eletricamente Inativas e em Ondas Q patológicas.
Onda R
- Primeira deflexão positiva do complexo
- Representa a ativação da massa ventricular predominante
Nas derivações precordiais:
- Espera-se crescimento progressivo da onda R de V1 até V4
- A zona de transição (R = S) ocorre habitualmente entre V3 e V4
Alterações na amplitude da onda R podem indicar:
- Sobrecargas ventriculares
- Áreas Eletricamente Inativas
- Alterações posicionais ou variantes da normalidade
Onda S
- Deflexão negativa após a onda R
- Representa forças elétricas tardias dirigidas posteriormente
- Predomina nas derivações precordiais direitas (V1–V2)
Nomenclatura do Complexo QRS
- Letras maiúsculas: ondas ≥ 5 mm
- Letras minúsculas: ondas < 5 mm
Exemplos:
- qRs
- rSr’
- RS
- QS (complexo totalmente negativo)
A presença de uma segunda deflexão positiva após R deve ser denominada R’.
Nomeclatura do Complexo QRS.
Valores de Normalidade
Duração
- Normal: 60–100 ms
- Limítrofe: 100–119 ms
- Alargado: ≥ 120 ms
Eixo Elétrico
- Normal: aproximadamente entre −30° e +90° no plano frontal
Progressão da Onda R
- Crescimento progressivo de V1 até V4
- Transição usual em V3 ou V4
Alterações do Complexo QRS
1. Alterações de Duração
O alargamento do QRS indica atraso na condução intraventricular.
Principais causas:
- Bloqueio de ramo direito
- Bloqueio de ramo esquerdo
- Ritmo ventricular
- Pré-excitação ventricular
- Bloqueios intraventriculares periféricos
O QRS largo deve sempre ser interpretado dentro do contexto clínico e do padrão morfológico específico.
2. Alterações de Amplitude
A amplitude do QRS reflete principalmente a massa ventricular e a transmissão do sinal elétrico.
Aumento de amplitude
Definição:
- QRS < 5 mm em todas as derivações dos membros
- QRS < 10 mm em todas as derivações precordiais
Pode estar associada a:
- Cardiomiopatias infiltrativas
- Tamponamento pericárdico
- DPOC
- Obesidade
- Infarto prévio
A baixa voltagem pode reduzir a sensibilidade dos critérios de hipertrofia ventricular.
3. Alterações do Eixo Elétrico
O desvio do eixo do QRS pode ocorrer por:
- Bloqueio divisional anterossuperior
- Bloqueio divisional posteroinferior
- Sobrecarga ventricular esquerda
- Áreas Eletricamente Inativas
- Alterações posicionais
4. Alterações Morfológicas
- Associadas a fibrose miocárdica
- Devem ser analisadas em derivações contíguas
- Presença de entalhes ou múltiplos “notches”
- Pode ocorrer com QRS estreito ou largo
- Associada a fibrose, cicatriz e heterogeneidade de condução
5. Alterações da Progressão da Onda R no Plano Horizontal
Progressão Lenta da Onda R
- Ausência de crescimento progressivo de V1 a V4
- Onda r pequena em V3
- Pode ocorrer por:
- Infarto anterior antigo
- Bloqueio divisional anterossuperior
- Sobrecarga ventricular esquerda
- Variante da normalidade (rotação horária)
Sua associação isolada com infarto anterior é limitada.
Onda R Alta em V1 e V2
- Relação R/S > 1 em V1 ou V2
- Pode representar:
- Áreas Eletricamente Inativas lateral (equivalente de onda Q)
- Bloqueio de ramo direito
- Sobrecarga ventricular direita
- Cardiomiopatia hipertrófica
- Pré-excitação ventricular
- Dextrocardia
- Mau posicionamento de eletrodos
- Variante da normalidade
A interpretação depende da análise conjunta da duração do QRS, eixo elétrico e alterações associadas.
Referências
- Scheffer MK, Ohe LN, Alencar Neto JN de. Manual Prático de Eletrocardiograma do Setor de Emergências do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia . São Paulo: Editora dos Editores; 2022.
- Alencar Neto JN de. Tratado de ECG . Salvador: Sanar; 2022.
- Samesima N, God EG, Kruse JCL, Leal MG, et al. Diretriz da Sociedade Brasileira de Cardiologia sobre a Análise e Emissão de Laudos Eletrocardiográficos – 2022 . Arq Bras Cardiol. 2022;119(4):638-680.
- Thygesen K, Alpert JS, Jaffe AS, Chaitman BR, et al. Fourth universal definition of myocardial infarction (2018) . Eur Heart J. 2019;40(3):237-269. doi:10.1093/eurheartj/ehy462.
- Das MK, Khan B, Jacob S, Kumar A, et al. Significance of a fragmented QRS complex versus a Q wave in patients with coronary artery disease . Circulation. 2006;113(21):2495-2501. doi:10.1161/CIRCULATIONAHA.105.595892.

Dr. Matheus Kiszka Scheffer
Especialista em ECG
Médico Cardiologista e Arritmologista, com formação e atuação no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia. Autor e editor dos livros Eletrocardiograma de A a Z e Eletrocardiograma na Síndrome Coronária Aguda, dedica-se ao ensino estruturado e baseado em evidências do ECG. É fundador do Aprenda ECG e criador do curso Mestre do ECG, projetos voltados à formação prática e aprofundada na interpretação eletrocardiográfica.
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