O Sinal da Bandeira da África do Sul

Entre os avanços mais recentes no ensino dos padrões eletrocardiográficos, o “sinal da bandeira da África do Sul” tem ganhado destaque como uma ferramenta didática eficaz para identificar o infarto da parede anterior média. Para entender a relevância desse sinal, é fundamental revisitar a relação entre as derivações eletrocardiográficas e as áreas do miocárdio afetadas, corrigindo alguns conceitos que, com o tempo, se mostraram imprecisos.
A Evolução da Classificação das Paredes do Infarto
Tradicionalmente, as derivações aVL e V2 eram vistas como não contíguas, representando diferentes regiões do miocárdio: aVL estava associada à parede lateral alta, enquanto V2 era vinculada à parede anterior. No entanto, com o avanço da ressonância magnética cardíaca e a nova classificação das paredes do infarto proposta por Bayés de Luna, ficou claro que essas derivações são, na verdade, contíguas, todas relacionadas ao território da parede anterior média.
Essa nova classificação esclarece que D1, aVL e V2 correspondem a um território de irrigação comum, geralmente suprido pelo primeiro ramo diagonal da artéria descendente anterior. O reconhecimento dessa continuidade nas derivações contribui para um diagnóstico mais preciso do infarto da parede anterior média, corrigindo a visão de que essas áreas não eram interligadas.
O Sinal da Bandeira da África do Sul
Com essa reclassificação surge o “sinal da bandeira da África do Sul”, que consiste na combinação de supradesnivelamento do segmento ST em D1, aVL e V2, associado a um infradesnivelamento do segmento ST na parede inferior, mais evidente na derivação D3. O padrão de elevação e depressão do segmento ST em diferentes derivações do ECG remete à disposição da faixa verde em Y da bandeira sul-africana.
Esse padrão visual é uma representação clara e útil no contexto do diagnóstico do infarto da parede anterior média, especialmente ao considerar a nova visão sobre as derivações contíguas.

Conclusão
A interpretação correta dos sinais eletrocardiográficos, como o “sinal da bandeira da África do Sul”, pode ser determinante para o diagnóstico precoce e o tratamento adequado do infarto. Ao reconhecer que as derivações D1, aVL e V2 são contíguas e correspondem ao mesmo território anatômico, médicos podem adotar uma abordagem mais precisa.
Referências
- Scheffer MK, De Marchi MFN, de Alencar Neto JN, Felicioni SP. Eletrocardiograma de A a Z. São Paulo: Manole, 2024.
- Bayés de Luna A, Wagner G, Birnbaum Y, Nikus K, et al. A New Terminology for Left Ventricular Walls and Location of Myocardial Infarcts That Present Q Wave Based on the Standard of Cardiac Magnetic Resonance Imaging. Circulation. 2006;114(16):1755–60.
- Littmann L. South African flag sign: A teaching tool for easier ECG recognition of high lateral infarct. Am J Emerg Med. 2016;34(1):107–9.
- Rajendran G, Mahalingam S, Kagne R, Nathan B. The South African flag sign—an electrocardiographic sign to predict the culprit artery. QJM An Int J Med. 2021;114(9):665–6.

Dr. Matheus Kiszka Scheffer
Especialista em ECG
Médico Cardiologista e Arritmologista, com formação e atuação no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia. Autor e editor dos livros Eletrocardiograma de A a Z e Eletrocardiograma na Síndrome Coronária Aguda, dedica-se ao ensino estruturado e baseado em evidências do ECG. É fundador do Aprenda ECG e criador do curso Mestre do ECG, projetos voltados à formação prática e aprofundada na interpretação eletrocardiográfica.
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