Doença Coronária

Principais Sinais Eletrocardiográficos de Oclusão Coronária Aguda

Dr. Matheus Kiszka Scheffer
Dr. Matheus Kiszka Scheffer
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15 de março de 20268 min de leitura0 visualizações
Principais Sinais Eletrocardiográficos de Oclusão Coronária Aguda
Principais Sinais Eletrocardiográficos de Oclusão Coronária Aguda

A oclusão coronária aguda (OCA) representa a forma mais grave da síndrome coronariana aguda e exige reconhecimento imediato. Embora o supradesnivelamento do segmento ST permaneça o marcador clássico de isquemia transmural, sua sensibilidade para detectar OCA é limitada. Dados recentes demonstram sensibilidade em torno de 43,6%, o que significa que mais da metade das oclusões coronárias podem não preencher critérios clássicos de IAM com supra de ST [3].

O paradigma tradicional IAMCSST/IAMSSST, ao basear a decisão terapêutica predominantemente na presença ou ausência de supradesnivelamento do segmento ST, falha em contemplar a complexidade eletrocardiográfica da OCA. O modelo OCA/NOCA propõe uma abordagem mais fisiopatológica, incorporando padrões adicionais de alto risco no ECG [1,3].

Este artigo revisa os principais sinais eletrocardiográficos de OCA, seus critérios diagnósticos e seu significado clínico, com foco prático para o cardiologista e o emergencista.

Sinais Eletrocardiográficos de Oclusão Coronária Aguda

1. Supradesnivelamento Clássico do Segmento ST

O supradesnivelamento do segmento ST é definido, conforme a Quarta Definição Universal de Infarto, por elevação ≥1 mm em duas derivações contíguas (com critérios específicos para V2-V3), na ausência de bloqueios de ramo ou hipertrofia ventricular esquerda significativa.

Fisiopatologicamente, representa isquemia transmural decorrente de oclusão coronária completa sem circulação colateral adequada. Sua especificidade é elevada, mas sua sensibilidade é limitada [3].

Clinicamente, permanece indicação formal de reperfusão imediata. Entretanto, não deve ser interpretado como o único marcador confiável de OCA.

ECG com supradesnivelamento do segmento ST em parede anterior extensa compatível com infarto agudo do miocárdio

Supradesnivelamento do segmento ST na parede anterior extensa.

2. Supradesnivelamento Sutil do Segmento ST

Elevações entre 0,1 e 0,9 mm frequentemente não preenchem critérios diretriz, mas podem representar oclusão verdadeira, especialmente quando acompanhadas de alterações dinâmicas ou mudanças recíprocas [2].

O reconhecimento exige comparação com ECGs prévios, avaliação cuidadosa da morfologia do segmento ST e correlação clínica estreita.

ECG com supradesnivelamento sutil do segmento ST sugestivo de infarto agudo do miocárdio

Supradesnivelamento sutil

3. Onda T Hiperaguda

A onda T hiperaguda é frequentemente o primeiro sinal específico de OCA.

  • Base alargada
  • Simetria
  • Aumento da área sob a curva
  • Relação T/QRS desproporcional

Não se trata apenas de amplitude aumentada, mas de desproporção relativa ao complexo QRS. Pode preceder o supradesnivelamento do ST e representa fase precoce da oclusão, com impacto potencial no salvamento miocárdico quando reconhecida a tempo [4].

ECG com onda T hiperaguda sugestiva de infarto agudo do miocárdio em fase inicial

Onda T hiperaguda

4. Padrão de de Winter

Descrito como equivalente de IAMCSST anterior, caracteriza-se por [5]:

  • Infradesnivelamento ascendente de 1–3 mm em V1–V6
  • Ondas T altas e simétricas
  • Elevação discreta em aVR

Está associado tipicamente à oclusão proximal da artéria descendente anterior. Apesar de não apresentar supra clássico, exige ativação imediata da hemodinâmica. Se quiser revisar o conceito com figuras, veja o Padrão de de Winter.

ECG com padrão de De Winter caracterizado por infradesnivelamento do ST em precordiais e ondas T altas simétricas

Padrão de "De Winter"

5. Padrão de Aslanger

Caracteriza-se por [2,4]:

  • Elevação isolada em D3
  • Infradesnivelamento em V4–V6
  • Ausência de supra em outras derivações inferiores

Ocorre frequentemente em pacientes com doença multiarterial e pode indicar oclusão inferior em contexto complexo. Não atende critérios tradicionais de supra em derivações contíguas, o que favorece subdiagnóstico. Para aprofundar, veja o Padrão de Aslanger.

ECG com padrão de Aslanger

Padrão de Aslanger

6. Infradesnivelamento de ST em V1–V3

Infradesnivelamento horizontal ou descendente em V1–V3 pode representar imagem em espelho de supradesnivelamento lateral, frequentemente associado à oclusão da artéria circunflexa [2].

Derivações posteriores (V7–V9) podem confirmar o diagnóstico, mas a suspeita deve surgir já no ECG convencional, especialmente quando o contexto clínico e a dinâmica do traçado sustentam isquemia aguda.

ECG com infradesnivelamento do segmento ST de V1 a V3 sugestivo de infarto lateral

Infradesnivelamento de V1 a V3

7. Sinal da Bandeira da África do Sul

Caracteriza-se por [2]:

  • Supradesnivelamento em I e aVL
  • Possível extensão para V2–V3
  • Infradesnivelamento inferior

Sugere oclusão do primeiro ramo diagonal da descendente anterior. É um padrão topográfico específico e frequentemente subvalorizado na leitura rápida do plantão. Confira também o Sinal da Bandeira da África do Sul.

ECG com padrão conhecido como sinal da Bandeira da África do Sul indicando oclusão do primeiro ramo diagonal

Sinal da Bandeira da África do Sul

8. Bloqueio de Ramo Esquerdo e Critérios de Sgarbossa Modificados

Na presença de BRE, a interpretação do ST torna-se complexa. Critérios modificados incluem [2,4]:

  • Supradesnivelamento concordante ≥1 mm
  • Infradesnivelamento concordante ≥1 mm em V1–V3
  • Relação ST/S ou ST/R ≥ 0,25

A cronologia do bloqueio é irrelevante diante de quadro clínico compatível. O reconhecimento adequado evita atrasos na reperfusão.

ECG com bloqueio de ramo esquerdo e critério de Sgarbossa modificado sugestivo de infarto agudo do miocárdio

Bloqueio de ramo esquerdo com sinal de Sgarbossa modificado

9. Distorção Terminal do QRS

O padrão descrito por Smith refere-se à distorção terminal do QRS nas derivações V2 e/ou V3, caracterizada por [2]:

  • Ausência de onda S
  • Ausência de entalhe ou onda J

Esse achado deve ser interpretado no contexto de supradesnivelamento anterior suspeito e indica que a despolarização ventricular já está significativamente comprometida pela isquemia. Trata-se de critério específico para oclusão da artéria descendente anterior, associado a maior probabilidade de oclusão verdadeira e necessidade de reperfusão imediata.

ECG com distorção terminal do QRS em derivações precordiais sugestiva de infarto anterior agudo

Distorção terminal do QRS

10. Fórmula de 4 Variáveis de Smith

A Fórmula de 4 Variáveis foi desenvolvida para diferenciar oclusão anterior verdadeira de padrões benignos de repolarização precoce, especialmente nos casos com supradesnivelamento sutil em V1–V3 [4].

Equação:

0,052 × (QTc de Bazett, em ms) − 0,151 × (amplitude do QRS em V2, mm) − 0,268 × (amplitude da onda R em V4, mm) + 1,062 × (supradesnivelamento do ST medido 60 ms após o ponto J em V3, mm)

Ponto de corte: valor ≥ 18,2 sugere fortemente oclusão coronária anterior.

A fórmula não deve ser utilizada quando há sinais evidentes de infarto anterior franco, pois nesses casos o diagnóstico já é claro. Sua utilidade maior está nos cenários de dúvida diagnóstica entre OCA e variantes benignas.

11. Novos Sinais e Padrões Emergentes

Divergência Precordial

Padrão vetorial em “redemoinho”, caracterizado por [2]:

  • Supradesnivelamento do ST ou onda T hiperaguda em V1–V2
  • Infradesnivelamento do ST ou inversão de T em V5–V6
  • QRS estreito, sem critérios de hipertrofia ventricular esquerda ou bloqueio de ramo

Esse padrão sugere vetor de lesão direcionado anteriormente e superiormente, sendo associado à oclusão proximal da artéria descendente anterior. Veja também: Divergência Precordial.

OCA Norte

A OCA Norte descreve um padrão em que o vetor de lesão se orienta superiormente, produzindo supradesnivelamento alto lateral e em aVR [2].

Critérios eletrocardiográficos:

  • Qualquer supradesnivelamento do segmento ST em aVR e aVL, associado a onda T negativa nessas derivações
  • Infradesnivelamento do ST em derivações inferiores e precordiais laterais (como V5–V6), com ondas T positivas ou bifásicas

Trata-se de padrão emergente associado a oclusão coronária significativa, devendo ser reconhecido como possível manifestação de OCA ativa.

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Conclusão Prática: Como Integrar no Plantão

O reconhecimento da OCA exige mudança de mentalidade. Não se trata de perguntar apenas “há supra?”, mas sim:

  • O padrão é compatível com oclusão ativa?
  • Há alterações desproporcionais ao QRS?
  • Existem sinais precoces ou equivalentes?
  • O quadro clínico é compatível?

A interpretação deve ser dinâmica, comparativa e integrada ao contexto clínico. No plantão, a lógica prática pode ser resumida em três passos:

  • 1. Identificar supra clássico.
  • 2. Procurar equivalentes de OCA na ausência de supra evidente.
  • 3. Considerar ferramentas auxiliares quando houver dúvida (ex.: fórmula de 4 variáveis) e manter baixa tolerância a “falsos negativos” no ECG em paciente compatível.

Se você quiser padronizar a leitura (e reduzir erro por “olhada rápida”), vale revisar a sistematização da interpretação do ECG.

Para aprofundamento e padronização de interpretação, recomenda-se a integração do conteúdo de livros-texto e revisões recentes sobre o paradigma OCA/NOCA e padrões eletrocardiográficos de OCA [1-6].

Tempo é miocárdio — mas apenas para quem reconhece a oclusão.

Referências

1. De Alencar JN, Feres F, De Marchi MFN, Franchini KG, Scheffer MK, Felicioni SP, et al. Além do Paradigma IAMCSST-IAMSSST: Proposta do Instituto Dante Pazzanese para o Diagnóstico de Oclusão Coronariana Aguda. Arq Bras Cardiol. 2024;121(5):e20230733.

2. Alencar JN, Silva GPSA, Pinto LO, De Marchi MFN, Felicioni SP, Scheffer MK. Sinais Eletrocardiográficos de Oclusão Coronária Aguda. Rev Soc Cardiol Estado de São Paulo. 2025;35(3):317-26.

3. Alencar Neto JN, Scheffer MK, Correia BP, Franchini KG, Felicioni SP, De Marchi MFN. Systematic review and meta-analysis of diagnostic test accuracy of ST-segment elevation for acute coronary occlusion. Int J Cardiol. 2024.

4. Ricci F, Martini C, Scordo DM, Rossi D, Gallina S, Fedorowski A, et al. ECG Patterns of Occlusion Myocardial Infarction: A Narrative Review. Ann Emerg Med. 2024.

5. Felicioni SP, De Alencar JN, Centemero MP, Lourenço UR, De Marchi MFN, Scheffer MK, et al. The de Winter electrocardiographic pattern: A systematic review of case reports. J Electrocardiol. 2024;87:153821.

6. Scheffer MK, de Alencar Neto JN, De Marchi MFN, Felicioni SP. Eletrocardiograma na síndrome coronária aguda. São Paulo: Manole; 2025.

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Dr. Matheus Kiszka Scheffer

Dr. Matheus Kiszka Scheffer

Especialista em ECG

Médico Cardiologista e Arritmologista, com formação e atuação no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia. Autor e editor dos livros Eletrocardiograma de A a Z e Eletrocardiograma na Síndrome Coronária Aguda, dedica-se ao ensino estruturado e baseado em evidências do ECG. É fundador do Aprenda ECG e criador do curso Mestre do ECG, projetos voltados à formação prática e aprofundada na interpretação eletrocardiográfica.

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