Principais Sinais Eletrocardiográficos de Oclusão Coronária Aguda

A oclusão coronária aguda (OCA) representa a forma mais grave da síndrome coronariana aguda e exige reconhecimento imediato. Embora o supradesnivelamento do segmento ST permaneça o marcador clássico de isquemia transmural, sua sensibilidade para detectar OCA é limitada. Dados recentes demonstram sensibilidade em torno de 43,6%, o que significa que mais da metade das oclusões coronárias podem não preencher critérios clássicos de IAM com supra de ST [3].
O paradigma tradicional IAMCSST/IAMSSST, ao basear a decisão terapêutica predominantemente na presença ou ausência de supradesnivelamento do segmento ST, falha em contemplar a complexidade eletrocardiográfica da OCA. O modelo OCA/NOCA propõe uma abordagem mais fisiopatológica, incorporando padrões adicionais de alto risco no ECG [1,3].
Este artigo revisa os principais sinais eletrocardiográficos de OCA, seus critérios diagnósticos e seu significado clínico, com foco prático para o cardiologista e o emergencista.
Sinais Eletrocardiográficos de Oclusão Coronária Aguda
1. Supradesnivelamento Clássico do Segmento ST
O supradesnivelamento do segmento ST é definido, conforme a Quarta Definição Universal de Infarto, por elevação ≥1 mm em duas derivações contíguas (com critérios específicos para V2-V3), na ausência de bloqueios de ramo ou hipertrofia ventricular esquerda significativa.
Fisiopatologicamente, representa isquemia transmural decorrente de oclusão coronária completa sem circulação colateral adequada. Sua especificidade é elevada, mas sua sensibilidade é limitada [3].
Clinicamente, permanece indicação formal de reperfusão imediata. Entretanto, não deve ser interpretado como o único marcador confiável de OCA.
Supradesnivelamento do segmento ST na parede anterior extensa.
2. Supradesnivelamento Sutil do Segmento ST
Elevações entre 0,1 e 0,9 mm frequentemente não preenchem critérios diretriz, mas podem representar oclusão verdadeira, especialmente quando acompanhadas de alterações dinâmicas ou mudanças recíprocas [2].
O reconhecimento exige comparação com ECGs prévios, avaliação cuidadosa da morfologia do segmento ST e correlação clínica estreita.
Supradesnivelamento sutil
3. Onda T Hiperaguda
A onda T hiperaguda é frequentemente o primeiro sinal específico de OCA.
- Base alargada
- Simetria
- Aumento da área sob a curva
- Relação T/QRS desproporcional
Não se trata apenas de amplitude aumentada, mas de desproporção relativa ao complexo QRS. Pode preceder o supradesnivelamento do ST e representa fase precoce da oclusão, com impacto potencial no salvamento miocárdico quando reconhecida a tempo [4].
Onda T hiperaguda
4. Padrão de de Winter
Descrito como equivalente de IAMCSST anterior, caracteriza-se por [5]:
- Infradesnivelamento ascendente de 1–3 mm em V1–V6
- Ondas T altas e simétricas
- Elevação discreta em aVR
Está associado tipicamente à oclusão proximal da artéria descendente anterior. Apesar de não apresentar supra clássico, exige ativação imediata da hemodinâmica. Se quiser revisar o conceito com figuras, veja o Padrão de de Winter.
Padrão de "De Winter"
5. Padrão de Aslanger
Caracteriza-se por [2,4]:
- Elevação isolada em D3
- Infradesnivelamento em V4–V6
- Ausência de supra em outras derivações inferiores
Ocorre frequentemente em pacientes com doença multiarterial e pode indicar oclusão inferior em contexto complexo. Não atende critérios tradicionais de supra em derivações contíguas, o que favorece subdiagnóstico. Para aprofundar, veja o Padrão de Aslanger.
Padrão de Aslanger
6. Infradesnivelamento de ST em V1–V3
Infradesnivelamento horizontal ou descendente em V1–V3 pode representar imagem em espelho de supradesnivelamento lateral, frequentemente associado à oclusão da artéria circunflexa [2].
Derivações posteriores (V7–V9) podem confirmar o diagnóstico, mas a suspeita deve surgir já no ECG convencional, especialmente quando o contexto clínico e a dinâmica do traçado sustentam isquemia aguda.
Infradesnivelamento de V1 a V3
7. Sinal da Bandeira da África do Sul
Caracteriza-se por [2]:
- Supradesnivelamento em I e aVL
- Possível extensão para V2–V3
- Infradesnivelamento inferior
Sugere oclusão do primeiro ramo diagonal da descendente anterior. É um padrão topográfico específico e frequentemente subvalorizado na leitura rápida do plantão. Confira também o Sinal da Bandeira da África do Sul.
Sinal da Bandeira da África do Sul
8. Bloqueio de Ramo Esquerdo e Critérios de Sgarbossa Modificados
Na presença de BRE, a interpretação do ST torna-se complexa. Critérios modificados incluem [2,4]:
- Supradesnivelamento concordante ≥1 mm
- Infradesnivelamento concordante ≥1 mm em V1–V3
- Relação ST/S ou ST/R ≥ 0,25
A cronologia do bloqueio é irrelevante diante de quadro clínico compatível. O reconhecimento adequado evita atrasos na reperfusão.
Bloqueio de ramo esquerdo com sinal de Sgarbossa modificado
9. Distorção Terminal do QRS
O padrão descrito por Smith refere-se à distorção terminal do QRS nas derivações V2 e/ou V3, caracterizada por [2]:
- Ausência de onda S
- Ausência de entalhe ou onda J
Esse achado deve ser interpretado no contexto de supradesnivelamento anterior suspeito e indica que a despolarização ventricular já está significativamente comprometida pela isquemia. Trata-se de critério específico para oclusão da artéria descendente anterior, associado a maior probabilidade de oclusão verdadeira e necessidade de reperfusão imediata.
Distorção terminal do QRS
10. Fórmula de 4 Variáveis de Smith
A Fórmula de 4 Variáveis foi desenvolvida para diferenciar oclusão anterior verdadeira de padrões benignos de repolarização precoce, especialmente nos casos com supradesnivelamento sutil em V1–V3 [4].
Equação:
0,052 × (QTc de Bazett, em ms) − 0,151 × (amplitude do QRS em V2, mm) − 0,268 × (amplitude da onda R em V4, mm) + 1,062 × (supradesnivelamento do ST medido 60 ms após o ponto J em V3, mm)
Ponto de corte: valor ≥ 18,2 sugere fortemente oclusão coronária anterior.
A fórmula não deve ser utilizada quando há sinais evidentes de infarto anterior franco, pois nesses casos o diagnóstico já é claro. Sua utilidade maior está nos cenários de dúvida diagnóstica entre OCA e variantes benignas.
11. Novos Sinais e Padrões Emergentes
Divergência Precordial
Padrão vetorial em “redemoinho”, caracterizado por [2]:
- Supradesnivelamento do ST ou onda T hiperaguda em V1–V2
- Infradesnivelamento do ST ou inversão de T em V5–V6
- QRS estreito, sem critérios de hipertrofia ventricular esquerda ou bloqueio de ramo
Esse padrão sugere vetor de lesão direcionado anteriormente e superiormente, sendo associado à oclusão proximal da artéria descendente anterior. Veja também: Divergência Precordial.
OCA Norte
A OCA Norte descreve um padrão em que o vetor de lesão se orienta superiormente, produzindo supradesnivelamento alto lateral e em aVR [2].
Critérios eletrocardiográficos:
- Qualquer supradesnivelamento do segmento ST em aVR e aVL, associado a onda T negativa nessas derivações
- Infradesnivelamento do ST em derivações inferiores e precordiais laterais (como V5–V6), com ondas T positivas ou bifásicas
Trata-se de padrão emergente associado a oclusão coronária significativa, devendo ser reconhecido como possível manifestação de OCA ativa.
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Conclusão Prática: Como Integrar no Plantão
O reconhecimento da OCA exige mudança de mentalidade. Não se trata de perguntar apenas “há supra?”, mas sim:
- O padrão é compatível com oclusão ativa?
- Há alterações desproporcionais ao QRS?
- Existem sinais precoces ou equivalentes?
- O quadro clínico é compatível?
A interpretação deve ser dinâmica, comparativa e integrada ao contexto clínico. No plantão, a lógica prática pode ser resumida em três passos:
- 1. Identificar supra clássico.
- 2. Procurar equivalentes de OCA na ausência de supra evidente.
- 3. Considerar ferramentas auxiliares quando houver dúvida (ex.: fórmula de 4 variáveis) e manter baixa tolerância a “falsos negativos” no ECG em paciente compatível.
Se você quiser padronizar a leitura (e reduzir erro por “olhada rápida”), vale revisar a sistematização da interpretação do ECG.
Para aprofundamento e padronização de interpretação, recomenda-se a integração do conteúdo de livros-texto e revisões recentes sobre o paradigma OCA/NOCA e padrões eletrocardiográficos de OCA [1-6].
Tempo é miocárdio — mas apenas para quem reconhece a oclusão.
Referências
1. De Alencar JN, Feres F, De Marchi MFN, Franchini KG, Scheffer MK, Felicioni SP, et al. Além do Paradigma IAMCSST-IAMSSST: Proposta do Instituto Dante Pazzanese para o Diagnóstico de Oclusão Coronariana Aguda. Arq Bras Cardiol. 2024;121(5):e20230733.
2. Alencar JN, Silva GPSA, Pinto LO, De Marchi MFN, Felicioni SP, Scheffer MK. Sinais Eletrocardiográficos de Oclusão Coronária Aguda. Rev Soc Cardiol Estado de São Paulo. 2025;35(3):317-26.
3. Alencar Neto JN, Scheffer MK, Correia BP, Franchini KG, Felicioni SP, De Marchi MFN. Systematic review and meta-analysis of diagnostic test accuracy of ST-segment elevation for acute coronary occlusion. Int J Cardiol. 2024.
4. Ricci F, Martini C, Scordo DM, Rossi D, Gallina S, Fedorowski A, et al. ECG Patterns of Occlusion Myocardial Infarction: A Narrative Review. Ann Emerg Med. 2024.
5. Felicioni SP, De Alencar JN, Centemero MP, Lourenço UR, De Marchi MFN, Scheffer MK, et al. The de Winter electrocardiographic pattern: A systematic review of case reports. J Electrocardiol. 2024;87:153821.
6. Scheffer MK, de Alencar Neto JN, De Marchi MFN, Felicioni SP. Eletrocardiograma na síndrome coronária aguda. São Paulo: Manole; 2025.
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Dr. Matheus Kiszka Scheffer
Especialista em ECG
Médico Cardiologista e Arritmologista, com formação e atuação no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia. Autor e editor dos livros Eletrocardiograma de A a Z e Eletrocardiograma na Síndrome Coronária Aguda, dedica-se ao ensino estruturado e baseado em evidências do ECG. É fundador do Aprenda ECG e criador do curso Mestre do ECG, projetos voltados à formação prática e aprofundada na interpretação eletrocardiográfica.
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