Ondas, Segmentos e Intervalos do ECG

Complexo QRS

Dr. Matheus Kiszka Scheffer
Dr. Matheus Kiszka Scheffer
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06 de abril de 20265 min de leitura0 visualizações
Complexo QRS
Complexo QRS

O complexo QRS representa a despolarização ventricular e é a principal assinatura elétrica da massa miocárdica no eletrocardiograma (ECG). Sua análise permite avaliar condução intraventricular, presença de necrose, sobrecargas e alterações estruturais.

Este resumo esquemático integra os conceitos fundamentais necessários para interpretar o complexo QRS dentro de uma abordagem morfológica sistemática.

Representação do complexo QRS no eletrocardiograma

Complexo QRS.

Ativação Ventricular

Após o atraso fisiológico no nó AV, o estímulo percorre rapidamente o sistema His-Purkinje, promovendo ativação ventricular coordenada no sentido ápice–base.

A ativação ventricular pode ser compreendida em três vetores principais:

1. Vetor Septal (inicial – 10 a 15 ms)

  • Direção: esquerda → direita e anteriormente
  • Corresponde à despolarização do septo interventricular
  • Gera:
    • Pequena onda r em V1
    • Pequena onda q em D1, aVL, V5 e V6

2. Vetor da Parede Livre (30 a 40 ms)

  • Direção: esquerda, inferior e posterior
  • Representa a ativação predominante do ventrículo esquerdo
  • É responsável pela maior parte da amplitude do QRS
  • Gera:
    • Onda S em V1
    • Onda R alta em V5 e V6

3. Vetor Basal (final – 20 a 30 ms)

  • Direção: superior, direita e posterior
  • Pode gerar:
    • Pequenas ondas s em derivações laterais
    • r’ terminal em V1

A soma vetorial desses três momentos forma o complexo QRS observado no ECG de superfície.

Diagrama da ativação ventricular mostrando vetor septal, vetor da parede livre do ventrículo esquerdo e vetor basal

Ativação ventricular. Os principais vetores resultantes da despolarização ventricular são: 1. vetor septal médio; 2. vetor da parede livre do VE; e 3. vetor das porções basais.

Formação das Ondas do Complexo QRS

Onda Q

  • Primeira deflexão negativa do complexo
  • Pode ser fisiológica ou patológica

Onda Q fisiológica (septal):

  • Pequena
  • Estreita (< 30 ms)
  • Profundidade < 25% da onda R
  • Presente em D1, aVL, V5 e V6

Onda Q patológica:

Critérios detalhados são discutidos no artigo de Áreas Eletricamente Inativas e em Ondas Q patológicas.

Onda R

  • Primeira deflexão positiva do complexo
  • Representa a ativação da massa ventricular predominante

Nas derivações precordiais:

  • Espera-se crescimento progressivo da onda R de V1 até V4
  • A zona de transição (R = S) ocorre habitualmente entre V3 e V4

Alterações na amplitude da onda R podem indicar:

Onda S

  • Deflexão negativa após a onda R
  • Representa forças elétricas tardias dirigidas posteriormente
  • Predomina nas derivações precordiais direitas (V1–V2)

Nomenclatura do Complexo QRS

  • Letras maiúsculas: ondas ≥ 5 mm
  • Letras minúsculas: ondas < 5 mm

Exemplos:

  • qRs
  • rSr’
  • RS
  • QS (complexo totalmente negativo)

A presença de uma segunda deflexão positiva após R deve ser denominada R’.

Diagrama ilustrando a nomenclatura das deflexões do complexo QRS no eletrocardiograma

Nomeclatura do Complexo QRS.

Valores de Normalidade

Duração

  • Normal: 60–100 ms
  • Limítrofe: 100–119 ms
  • Alargado: ≥ 120 ms

Eixo Elétrico

  • Normal: aproximadamente entre −30° e +90° no plano frontal

Progressão da Onda R

  • Crescimento progressivo de V1 até V4
  • Transição usual em V3 ou V4

Alterações do Complexo QRS

1. Alterações de Duração

O alargamento do QRS indica atraso na condução intraventricular.

Principais causas:

O QRS largo deve sempre ser interpretado dentro do contexto clínico e do padrão morfológico específico.

2. Alterações de Amplitude

A amplitude do QRS reflete principalmente a massa ventricular e a transmissão do sinal elétrico.

Aumento de amplitude

Baixa voltagem do qrs

Definição:

  • QRS < 5 mm em todas as derivações dos membros
  • QRS < 10 mm em todas as derivações precordiais

Pode estar associada a:

A baixa voltagem pode reduzir a sensibilidade dos critérios de hipertrofia ventricular.

3. Alterações do Eixo Elétrico

O desvio do eixo do QRS pode ocorrer por:

4. Alterações Morfológicas

Ondas Q patológicas

  • Associadas a fibrose miocárdica
  • Devem ser analisadas em derivações contíguas

Fragmentação do QRS

  • Presença de entalhes ou múltiplos “notches”
  • Pode ocorrer com QRS estreito ou largo
  • Associada a fibrose, cicatriz e heterogeneidade de condução

5. Alterações da Progressão da Onda R no Plano Horizontal

Progressão Lenta da Onda R

Sua associação isolada com infarto anterior é limitada.

Onda R Alta em V1 e V2

A interpretação depende da análise conjunta da duração do QRS, eixo elétrico e alterações associadas.

Referências

  1. Scheffer MK, Ohe LN, Alencar Neto JN de. Manual Prático de Eletrocardiograma do Setor de Emergências do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia . São Paulo: Editora dos Editores; 2022.
  2. Alencar Neto JN de. Tratado de ECG . Salvador: Sanar; 2022.
  3. Samesima N, God EG, Kruse JCL, Leal MG, et al. Diretriz da Sociedade Brasileira de Cardiologia sobre a Análise e Emissão de Laudos Eletrocardiográficos – 2022 . Arq Bras Cardiol. 2022;119(4):638-680.
  4. Thygesen K, Alpert JS, Jaffe AS, Chaitman BR, et al. Fourth universal definition of myocardial infarction (2018) . Eur Heart J. 2019;40(3):237-269. doi:10.1093/eurheartj/ehy462.
  5. Das MK, Khan B, Jacob S, Kumar A, et al. Significance of a fragmented QRS complex versus a Q wave in patients with coronary artery disease . Circulation. 2006;113(21):2495-2501. doi:10.1161/CIRCULATIONAHA.105.595892.

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Dr. Matheus Kiszka Scheffer

Dr. Matheus Kiszka Scheffer

Especialista em ECG

Médico Cardiologista e Arritmologista, com formação e atuação no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia. Autor e editor dos livros Eletrocardiograma de A a Z e Eletrocardiograma na Síndrome Coronária Aguda, dedica-se ao ensino estruturado e baseado em evidências do ECG. É fundador do Aprenda ECG e criador do curso Mestre do ECG, projetos voltados à formação prática e aprofundada na interpretação eletrocardiográfica.

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