Conduta da Fibrilação Atrial Pré-Excitada: decisão rápida na emergência

A fibrilação atrial pré-excitada é uma das situações mais perigosas da eletrocardiografia na sala de emergência. Trata-se de uma taquicardia irregular de QRS largo que pode degenerar rapidamente em fibrilação ventricular se a conduta for inadequada. Reconhecer o padrão e saber o que fazer — e principalmente o que não fazer — é decisivo.
Este artigo resume a abordagem prática baseada nas Diretrizes ESC 2019 para taquicardias supraventriculares.
Taquicardia irregular de QRS largo: o diferencial em segundos
Diante de uma taquicardia irregular com QRS >120 ms, três diagnósticos devem ser considerados:
- Fibrilação atrial com aberrância
- Fibrilação atrial pré-excitada
- Taquicardia ventricular polimórfica
A distinção importa porque a terapêutica é completamente diferente. Bloquear o nó AV em uma fibrilação atrial pré-excitada pode acelerar a condução pela via acessória e precipitar fibrilação ventricular.
Em caso de dúvida, trate como fibrilação atrial pré-excitada até prova em contrário.
Como reconhecer fibrilação atrial pré-excitada no ECG
Os achados clássicos incluem:
- Ritmo irregularmente irregular
- QRS largo
- Morfologia do QRS variável batimento a batimento
- Intervalos RR extremamente curtos
- Frequência ventricular frequentemente >200–250 bpm
Fibrilação atrial pré-excitada
A variabilidade morfológica ocorre porque a ativação ventricular alterna entre diferentes graus de condução pela via acessória e pelo sistema His-Purkinje.
Alerta prático de plantão:
QRS largo + irregular + muito rápido = pense em via acessória.
Se houver intervalos RR muito curtos (<250 ms), a probabilidade de condução predominante pela via acessória é alta, indicando risco aumentado de instabilidade elétrica.
Fisiopatologia em 60 segundos
Na fibrilação atrial comum, o nó AV exerce efeito protetor devido à sua condução decremental.
Na presença de uma via acessória, essa proteção desaparece. A via acessória não apresenta propriedade decremental significativa. Durante a fibrilação atrial, múltiplos impulsos atriais podem alcançar os ventrículos com alta frequência.
Se o nó AV for bloqueado farmacologicamente, a condução pela via acessória pode se tornar dominante, aumentando ainda mais a resposta ventricular.
O resultado pode ser degeneração para fibrilação ventricular.
É por isso que o erro terapêutico aqui não é apenas ineficaz — é potencialmente fatal.
Conduta na emergência
A abordagem depende exclusivamente da estabilidade hemodinâmica.
Paciente instável
Critérios usuais de instabilidade (hipotensão, dor torácica isquêmica, edema agudo de pulmão, rebaixamento de consciência) indicam:
- Cardioversão elétrica sincronizada imediata (Classe I)
Não se deve postergar cardioversão para tentativa farmacológica.
Paciente estável
Segundo a ESC 2019, as recomendações são:
- Ibutilide intravenoso (Classe IIa, nível B)
- Procainamida intravenosa (Classe IIa, nível B)
Essas drogas prolongam o período refratário da via acessória e reduzem a condução ventricular.
Pode-se considerar ainda:
- Flecainida intravenosa (Classe IIb, nível B)
- Propafenona intravenosa (Classe IIb, nível B)
A cardioversão elétrica sincronizada é recomendada (Classe I, nível B) se a terapia farmacológica falhar em converter ou controlar a taquicardia.
Considerações importantes de segurança
- Amiodarona intravenosa não é recomendada (Classe III, nível B).
- Ibutilide é contraindicada em pacientes com QTc prolongado.
- Procainamida também prolonga o QTc, porém menos que agentes classe III.
- Flecainida e propafenona são contraindicadas em cardiopatia estrutural ou doença isquêmica.
O que é contraindicado
As seguintes medicações não devem ser utilizadas por bloquearem o nó AV isoladamente:
- Adenosina
- Verapamil
- Diltiazem
- Betabloqueadores
- Digoxina
Todas podem aumentar a condução pela via acessória e precipitar fibrilação ventricular.
Fluxo mental prático para o plantão
1. Taquicardia irregular?
2. QRS largo?
3. Frequência muito alta?
4. Morfologia variável?
Se sim → suspeite de fibrilação atrial pré-excitada.
Instável → choque.
Estável → procainamida ou ibutilide.
Nunca bloqueie o nó AV isoladamente.
Após reversão: o próximo passo
Pacientes com fibrilação atrial pré-excitada têm indicação de avaliação eletrofisiológica.
A ablação por cateter da via acessória é recomendada em pacientes sintomáticos e representa tratamento definitivo (Classe I).
Mesmo após reversão farmacológica bem-sucedida, o risco de recorrência permanece até eliminação da via acessória.
Mensagem final
A fibrilação atrial pré-excitada é uma emergência elétrica.
O diagnóstico é eletrocardiográfico.
Se houver dúvida diante de taquicardia irregular de QRS largo e muito rápida, evite bloqueadores do nó AV.
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Referências
1. Brugada J, Katritsis DG, Arbelo E, et al. 2019 ESC Guidelines for the management of patients with supraventricular tachycardia. Eur Heart J. 2019;40(38):3812-3870.
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Dr. Matheus Kiszka Scheffer
Especialista em ECG
Médico Cardiologista e Arritmologista, com formação e atuação no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia. Autor e editor dos livros Eletrocardiograma de A a Z e Eletrocardiograma na Síndrome Coronária Aguda, dedica-se ao ensino estruturado e baseado em evidências do ECG. É fundador do Aprenda ECG e criador do curso Mestre do ECG, projetos voltados à formação prática e aprofundada na interpretação eletrocardiográfica.
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