Taquicardia por Reentrada Nodal vs Taquicardia por Reentrada Atrioventricular Ortodrômica

A Taquicardia por Reentrada Nodal (TRN) e a Taquicardia por Reentrada Atrioventricular (TRAV) Ortodrômica não se confundem apenas pelos nomes. Suas manifestações eletrocardiográficas também compartilham semelhanças que podem tornar o diagnóstico desafiador. Por isso, é fundamental revisitar os principais conceitos dessas taquicardias supraventriculares e destacar suas diferenças, garantindo uma interpretação precisa do ECG e um manejo clínico mais assertivo.
Revisão
A TRN ocorre na existência de duas vias de condução pelo nó AV, uma com condução lenta, que faz a ativação anterógrada, e outra com condução rápida, que faz a ativação retrógrada. Suas principais alterações eletrocardiográficas são:
- A onda P retrógrada pode estar dentro do complexo QRS (inaparente) ou surgir após o QRS formando pseudo-s em D2, D3 e aVF e pseudo-r em V1
- Intervalo RP curto e < 70 ms
- Intervalo RR regular
- FC geralmente entre 150 e 250 bpm

A TRAV Ortodrômica, por outro lado, ocorre pela reentrada envolvendo o sistema de condução e vias acessórias. No caso da TRAV Ortodrômica, a via acessória representa o componente retrógrado do circuito, enquanto o sistema de condução é responsável pelo componente anterógrado. Suas principais alterações eletrocardiográficas são:
- Taquicardia de QRS estreito e intervalo RR regular
- Intervalo RP curto e > 70 ms
- FC entre 150 e 250 bpm
- Pode ocorrer infradesnivelamento do segmento ST de vido a fusão do segmento ST com a onda P retrógrada
- Alternância elétrica (QRS alterans)

Diferenças eletrocardiográficas
Na prática clínica, mesmo conhecendo os critérios eletrocardiográficos, diferenciar essas duas arritmias supraventriculares pode ser desafiador. No entanto, a análise do intervalo RP — a distância entre a onda R e a próxima onda P retrógrada — pode fornecer pistas valiosas para essa distinção. Na TRAV Ortodrômica, esse intervalo costuma ser superior a 70 ms, frequentemente acompanhado por infradesnivelamento do segmento ST, um critério adicional que auxilia na diferenciação. Já na TRN, o intervalo RP é tipicamente inferior a 70 ms, o que ajuda a direcionar o diagnóstico.
Referências
- Scheffer MK, De Marchi MFN, de Alencar Neto JN, Felicioni SP. Eletrocardiograma de A a Z. São Paulo: Manole, 2024.
- Alencar JN. Tratado de ECG. 2022.

Gabriel Scarpioni Barbosa
Especialista em ECG
Estudante de Medicina na Faculdade Santa Marcelina, colunista do site Aprenda ECG e Diretor de Pesquisa do Centro Acadêmico Adib Jatene. Apaixonado por eletrocardiografia, dedica-se ao estudo e aprofundamento nessa área.
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